A Segunda Turma retomou o julgamento de “habeas corpus”
impetrado contra acórdão do Superior Tribunal de Justiça (STJ) que mantivera
decisão condenando o paciente à pena de três anos de reclusão, em regime
inicial semiaberto, pela prática do crime de furto qualificado (CP/1940, art.
155, § 4º). A defesa sustenta a desproporcionalidade da pena-base aplicada e
pleiteia a substituição da pena privativa de liberdade pela restritiva de
direitos.
O STJ considerara as seguintes circunstâncias desfavoráveis ao
réu: a) presença de culpabilidade, uma vez que o paciente estaria consciente da
ilicitude do seu comportamento; b) ocorrência de rompimento de obstáculo à
subtração da coisa (CP/1940, art. 155, § 4º, I); c) caracterização de maus
antecedentes, tendo em conta a existência de quatro processos criminais em
curso (v. Informativo 759).
Em voto-vista, a ministra Cármen Lúcia denegou a ordem. Não
verificou constrangimento ilegal quanto à alegação de ausência de fundamentação
idônea para a fixação da pena-base acima do mínimo legal.
Por um lado, afastou a consciência da ilicitude (pressuposto da
culpabilidade) e o rompimento de obstáculo (elementar do tipo) como
circunstâncias idôneas a justificar a exacerbação da pena-base.
Por outro, verificou a existência de outras circunstâncias
referidas pelo magistrado sentenciante, omitidas na fase do art. 59 do CP/1940,
como o acusado haver escalado muro para furtar, ter retirado grande quantidade
de objetos do local do delito e ter sido flagrado vendendo os produtos do
crime. Essas circunstâncias foram expressamente invocadas no julgamento da
apelação como suficientes para afirmar o acerto da pena, sem que sua utilização
implicasse “reformatio in pejus”.
Ademais, considerou não se aplicar ao caso a suposta
incompatibilidade entre a causa de aumento prevista no § 1º do art. 155 do
CP/1940 (crime praticado durante o repouso noturno) e a forma qualificada do
delito de furto, prevista no § 4º do mesmo artigo, invocada pelo ministro Gilmar
Mendes (relator) para a concessão de ofício da ordem.
Explicou que se admite a compatibilidade entre a causa de
aumento e a qualificadora do crime de furto, tendo em conta que os dois
comandos normativos são conciliáveis. Nesse sentido, o furto qualificado pela
destruição ou rompimento de obstáculo pode ou não ser praticado durante o
repouso noturno, de modo que essas duas figuras não se excluem. Tal conduta é
ainda mais reprovável, o que enseja a incidência da causa de aumento.
Por fim, entendeu não caber a substituição da pena por
restritiva de direitos, consideradas as circunstâncias dos autos, em especial a
quantidade de bens furtados, o “modus operandi” e os vários processos a que
responde o paciente por delitos na mesma natureza, motivo pelo qual estava
preso pouco antes do cometimento do crime.
Em seguida, pediu vista o ministro Teori Zavascki.
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