A doação remuneratória deve respeitar a legítima dos herdeiros. O Código Civil de 1916, assim como o CC/2002, proíbem expressamente tanto a doação universal, como a doação inoficiosa. A doação universal (art. 1.175 do CC/1916; art. 548 do CC/2002) é vedada porque, como leciona a doutrina, "mesmo os que não possuem herdeiros, não podem doar simplesmente tudo o que têm", motivo pelo qual "o doador sempre deve manter em seu patrimônio bens ou renda suficientes para a sua subsistência". Por sua vez, a doação inoficiosa (arts 1.176 e 1.576, do CC/1916; art. 549 do CC/2002) é igualmente proibida no direito brasileiro porque quis o legislador tutelar os interesses dos herdeiros necessários, conferindo a eles uma certa garantia de subsistência decorrente dos estreitos vínculos de parentesco com o falecido. Uma parcela significativa da doutrina tem dado às doações universais e às doações inoficiosas o caráter de regra inflexível, reputando como absolutamente nulo o ato de disposição de todo o patrimônio ou o ato de disposição em desrespeito à legítima dos herdeiros necessários e, mesmo quem sustenta haver a possibilidade de alguma espécie de flexibilização dessas regras, não dispensa a preservação de um mínimo existencial para preservação da dignidade da pessoa humana do doador (na hipótese da doação universal) ou a obrigatória aquiescência dos herdeiros (na hipótese da doação inoficiosa). É nesse contexto, pois, que a doação remuneratória, caracterizada pela existência de uma recompensa dada pelo doador pelo serviço prestado pelo donatário e que, embora quantificável pecuniariamente, não é juridicamente exigível, deve respeitar os limites impostos pelo legislador aos atos de disposição de patrimônio do doador, de modo que, sob esse pretexto, não se pode admitir a doação universal de bens sem resguardo do mínimo existencial do doador, tampouco a doação inoficiosa em prejuízo à legítima dos herdeiros necessários sem a indispensável autorização desses, inexistente na hipótese em exame. REsp 1.708.951-SE, Rel. Min. Nancy Andrighi, Terceira Turma, por unanimidade, julgado em 14/05/2019, DJe 16/05/2019.
Informativo STJ nº648
Tá Difícil? Quer por assunto?! 💡INFORMATIVOS STJ, POR ASSUNTO. Os informativos são divididos de forma a sistematizar os assuntos tratados na Constituição Federal, leis e doutrinas. Por: Karla Viviane Ribeiro Marques e Allan dos Anjos Moura Marques. *Observar atualizações no site do STJ
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07/06/2019
10/05/2019
IMÓVEL DOADO AOS FILHOS. CLÁUSULA DE INALIENABILIDADE. MORTE DOS DOADORES. AUSÊNCIA DE JUSTA CAUSA PARA A MANUTENÇÃO DA RESTRIÇÃO AO DIREITO DE PROPRIEDADE. CANCELAMENTO DA CLÁUSULA. POSSIBILIDADE.
É possível o cancelamento da cláusula de inalienabilidade de imóvel após a morte dos doadores se não houver justa causa para a manutenção da restrição ao direito de propriedade. O Superior Tribunal de Justiça, ainda sob a vigência do CC/1916, teve a oportunidade de interpretar o art. 1.676 do referido Código com ressalvas, admitindo-se o cancelamento da cláusula de inalienabilidade nas hipóteses em que a restrição, no lugar de cumprir sua função de garantia de patrimônio aos descendentes, representava lesão aos seus legítimos interesses. Nesse sentido, a imobilização do bem nas mãos dos donatários poderá não lhes garantir a subsistência, seja porque a própria função social do imóvel objeto do negócio a título gratuito resta por todo combalida, assumindo-se uma posição "antieconômica", com a sua retirada do mercado por dilargadas décadas, cristalizando-o no patrimônio de quem dele não mais deseja ser o seu proprietário. Assim, o atual Código Civil, no art. 1.848, passou a exigir que o instituidor da inalienabilidade, nos casos de testamento, indique expressamente uma justa causa para a restrição imposta, operando verdadeira inversão na lógica existente sob a égide do CC de 1916. Há de se exigir que o doador manifeste razoável justificativa para a imobilização de determinado bem em determinado patrimônio, sob pena de privilegiarem-se excessos de proteção ou caprichos desarrazoados. Segundo a doutrina, "o que determina a validade da cláusula não é mais a vontade indiscriminada do testador, mas a existência de justa causa para a restrição imposta voluntariamente pelo testador. Pode ser considerada justa causa a prodigalidade, ou a incapacidade por doença mental, que diminuindo o discernimento do herdeiro, torna provável que esse dilapide a herança". Nesse contexto, o ato intervivos de transferência de bem do patrimônio dos pais aos filhos configura adiantamento de legítima e, com a morte dos doadores, passa a ser legítima propriamente dita. Não havendo justo motivo para que se mantenha congelado o bem sob a propriedade dos donatários, todos maiores, que manifestam não possuir interesse em manter sob o seu domínio o imóvel, há de se cancelar as cláusulas que o restrigem. REsp 1.631.278-PR, Rel. Min. Paulo de Tarso Sanseverino, por unanimidade, julgado em 19/03/2019, DJe 29/03/2019.
Informativo STJ nº646
07/12/2018
ARTIGO 1.911 DO CÓDIGO CIVIL DE 2002. INTERPRETAÇÃO. CLÁUSULA DE INALIENABILIDADE. MAIOR AMPLITUDE. PRESSUPOSIÇÃO EX VI LEGE DE IMPENHORABILIDADE E INCOMUNICABILIDADE. CLÁUSULA DE IMPENHORABILIDADE E/OU INCOMUNICABILIDADE. PRESSUPOSIÇÃO DE CLÁUSULA DE INALIENABILIDADE. INVIABILIDADE.
A melhor interpretação do caput do art. 1.911 do Código Civil de 2002 é aquela que conduz ao entendimento de que: a) há possibilidade de imposição autônoma das cláusulas de inalienabilidade, impenhorabilidade e incomunicabilidade, a critério do doador/instituidor; b) uma vez aposto o gravame da inalienabilidade, pressupõe-se, ex vi lege, automaticamente, a impenhorabilidade e a incomunicabilidade; c) a inserção exclusiva da proibição de não penhorar e/ou não comunicar não gera a presunção da inalienabilidade; d) a instituição autônoma da impenhorabilidade não pressupõe a incomunicabilidade e vice-versa. Cinge-se a controvérsia em definir a interpretação jurídica a ser dada ao caput do art. 1.911 do Código Civil de 2002 diante da nítida limitação ao pleno direito de propriedade, para definir se a aposição da cláusula de impenhorabilidade e/ou incomunicabilidade em ato de liberalidade importa automaticamente, ou não, na cláusula de inalienabilidade. Nesse sentido, cumpre salientar que da simples leitura do artigo de lei anteriormente mencionado, depreende-se que o legislador estabeleceu apenas um comando, isto é, que a imposição da inalienabilidade resume a impenhorabilidade e incomunicabilidade. Em outras palavras, a lei civil não estabeleceu, prima facie, que a impenhorabilidade ou a incomunicabilidade, gravadas de forma autônoma, importaria na inalienabilidade. A doutrina esclarece que "o art. 1.911 do Código Civil estabelece que a cláusula de inalienabilidade gravada sobre bens que compõem a herança implica, automaticamente, nas cláusulas de 'impenhorabilidade e incomunicabilidade'. Ou seja, basta gravar o patrimônio transmitido com a cláusula de inalienabildiade para que as demais decorram de pleno direito. A recíproca, entretanto, não é verdadeira. Por isso, as cláusulas de impenhorabildiade e de incomunicabildiade podem ser impostas isoladamente, produzindo efeitos únicos. A cláusula de inalienabilidade, porém, se apresenta mais larga e profunda, trazendo consigo, a reboque, as demais". Dessa forma, sendo a inalienabilidade de maior amplitude, é decorrência natural que implique na proibição de penhorar e comunicar, tudo isso seguindo a lógica da antiga máxima de que in eo quod plus est semper inest et minus (quem pode o mais, pode o menos). Porém, o contrário não se verifica. A impenhorabilidade e a incomunicabilidade possuem objetos mais limitados, específicos. A primeira se volta tão somente para os credores e a segunda impõe-se ao cônjuge do beneficiário (donatário ou herdeiro). Nessa seara, é consectário lógico que a previsão de cláusula mais restritiva não possa abranger objeto mais extenso. Esse é o sentido jurídico pelo qual o legislador do Código Civil de 2002 limitou-se a estabelecer, no caput do art. 1.911, uma única direção para a norma proibitiva, isto é, que a inalienabilidade implica automaticamente na impenhorabilidade e na incomunicabilidade, restrigindo a tanto a vedação. REsp 1.155.547-MG, Rel. Min. Marco Buzzi, por unanimidade, julgado em 06/11/2018, DJe 09/11/2018.
Informativo STJ nº637
20/02/2016
DIREITO CIVIL. REQUISITOS DO INSTRUMENTO PROCURATÓRIO PARA A VALIDADE DA DOAÇÃO.
É inválida a doação realizada
por meio de procurador se o instrumento procuratório concedido pelo
proprietário do bem não mencionar o donatário, sendo insuficiente a
declaração de poderes gerais na procuração. Nos termos
legais (art. 538 do CC), objetivamente, "Considera-se doação o
contrato em que uma pessoa, por liberalidade, transfere do seu
patrimônio bens ou vantagens para o de outra". De forma subjetiva, a
doação representa um gesto de generosidade ou filantropia que
resulta da vontade desinteressada do doador de praticar uma
liberalidade. É contrato festejado na sociedade em virtude da
valorização que se dá às condutas animadas por solidariedade e
caridade. A despeito do caráter de liberalidade (animus
donandi), segundo doutrina, existe no âmbito jurídico uma dupla
preocupação relativamente a essa modalidade contratual: "de um lado,
a permissão da prática da liberalidade como legítima e espontânea
manifestação de vontade; de outra banda, o estabelecimento de uma
proteção fundamental à pessoa do doador, evitando prejuízos a quem
pratica um ato de generosidade". Assim, atento ao risco de o nobre
propósito de doar ser desvirtuado ou forjado, inclusive por mascarar
negócio jurídico distinto, existem institutos vocacionados a
controlar a sua regularidade, sendo que sua caracterização depende
da conjugação de elementos subjetivos e objetivos, quais sejam: a) o
sujeito (doador e donatário); b) o objeto a ser doado; c) o
animus donandi (intenção/vontade do doador de praticar a
liberalidade visando enriquecer o donatário); d) a transferência de
bens ou vantagens em favor do donatário; e) a aceitação de quem
recebe, afinal é com o consentimento de quem se beneficia que passa
o donatário a assumir deveres éticos, morais e jurídico para com o
benfeitor; e f) a forma pela qual se opera a doação. Ressalte-se que
o ordenamento jurídico permite a doação por procurador constituído
pelo doador, desde que ostente instrumento de mandato com poderes
especiais, nos termos do art. 661, §1º, do CC: "Para alienar,
hipotecar, transigir, ou praticar outros quaisquer atos que
exorbitem da administração ordinária, depende a procuração de
poderes especiais e expressos". Assim, diante da solenidade que a
doação impõe, em razão da disposição de patrimônio que acarreta,
somente o mandatário munido de poderes especiais para o ato é que
pode representar o titular do bem a ser doado. Assinale-se que a
doutrina e a jurisprudência brasileiras têm admitido a doação por
procuração, desde que o doador cuide de especificar o objeto da
doação e o beneficiário do ato (donatário). A propósito, o STJ já
exarou o entendimento de que o animus donandi
materializa-se pela indicação expressa do bem e do beneficiário
da liberalidade, razão por que é insuficiente a cláusula que confere
poderes genéricos para a doação (REsp 503.675-SP, Terceira Turma, DJ
27/6/2005). REsp 1.575.048-SP, Rel. Min. Marco Buzzi,
julgado em 23/2/2016, DJe 26/2/2016.
07/02/2016
DIREITO CIVIL. HERANÇA DE BEM GRAVADO COM CLÁUSULA DE INCOMUNICABILIDADE.
A cláusula de incomunicabilidade imposta a um bem transferido
por doação ou testamento só produz efeitos enquanto viver o beneficiário, sendo
que, após a morte deste, o cônjuge sobrevivente poderá se habilitar como
herdeiro do referido bem, observada a ordem de vocação hereditária. Isso porque a cláusula
de incomunicabilidade imposta a um bem não se relaciona com a vocação
hereditária. Assim, se o indivíduo recebeu por doação ou testamento bem imóvel
com a referida cláusula, sua morte não impede que seu herdeiro receba o mesmo
bem. São dois institutos distintos: cláusula de incomunicabilidade e vocação
hereditária. Diferenciam-se, ainda: meação e herança. Ressalte-se que o art.
1.829 do CC enumera os chamados a suceder e define a ordem em que a sucessão é deferida.
O dispositivo preceitua que o cônjuge é também herdeiro e nessa qualidade
concorre com descendentes (inciso I) e ascendentes (inciso II). Na falta de
descendentes e ascendentes, o cônjuge herda sozinho (inciso III). Só no inciso
IV é que são contemplados os colaterais. Pode-se imaginar, por exemplo, a
hipótese em que um bem é doado ao cônjuge (ou legado a ele) com cláusula de
inalienabilidade. Dá-se o divórcio e o bem, em virtude daquela cláusula, não
compõe o monte a ser partilhado. Outra hipótese, bem diferente, é a do cônjuge
que recebe a coisa gravada com aquela cláusula e falece. O bem, que era
exclusivo dele, passa a integrar o monte que será herdado por aqueles que a lei
determina. Monte, aliás, eventualmente composto por outros bens também exclusivos
que, nem por isso, deixam de fazer parte da herança. Não se desconhece a
existência de precedente da 4ª Turma, no qual se decidiu, por maioria, que
"estabelecida, pelo testador, cláusula restritiva sobre o quinhão da
herdeira, de incomunicabilidade, inalienabilidade e impenhorabilidade, o
falecimento dela não afasta a eficácia da disposição testamentária, de sorte
que procede o pedido de habilitação, no inventário em questão, dos sobrinhos da
de cujus" (REsp 246.693-SP, DJ 17/5/2004). Ressalte-se, contudo, que a
jurisprudência mais recente do STJ, seguindo a doutrina e a jurisprudência do
STF, voltou a orientar-se no sentido de que "a cláusula de
inalienabilidade vitalícia tem vigência enquanto viver o beneficiário, passando
livres e desembaraçados aos seus herdeiros os bens objeto da restrição"
(REsp 1.101.702-RS, Terceira Turma, DJe 9/10/2009). Por outro lado, a linha
exegética segundo a qual a incomunicabilidade de bens inerente ao regime de
bens do matrimônio teria o efeito de alterar a ordem de vocação hereditária
prevista no CC/2002 não encontra apoio na jurisprudência atualmente consolidada
na Segunda Seção (REsp 1.472.945-RJ, Terceira Turma, DJe 19/11/2014; REsp
1.382.170-SP, Segunda Seção, DJe 26/5/2015; AgRg nos EREsp 1.472.945-RJ,
Segunda Seção, DJe 29/6/2015). REsp 1.552.553-RJ, Rel.
Min. Maria Isabel Gallotti, julgado em 24/11/2015, DJe 11/2/2016.
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