Na hipótese de inexecução do contrato, revela-se inadmissível a cumulação das arras com a cláusula penal compensatória, sob pena de ofensa ao princípio do non bis in idem. Cinge-se a controvérsia acerca da impossibilidade de cumulação da cláusula penal compensatória com a retenção das arras. Inicialmente, cumpre salientar que a cláusula penal constitui pacto acessório, de natureza pessoal, por meio do qual as partes contratantes, com o objetivo de estimular o integral cumprimento da avença, determinam previamente uma penalidade a ser imposta ao devedor na hipótese de inexecução total ou parcial da obrigação, ou de cumprimento desta em tempo e modo diverso do pactuado. Nos termos do art. 409 do Código Civil de 2002, a cláusula penal, também chamada de pena convencional ou simplesmente multa contratual, pode ser classificada em duas espécies: (i) a cláusula penal compensatória, que se refere à inexecução da obrigação, no todo ou em parte; e (ii) a cláusula penal moratória, que se destina a evitar retardamento no cumprimento da obrigação, ou o seu cumprimento de forma diversa da convencionada, quando a obrigação ainda for possível e útil ao credor. Quando ajustada entre as partes, a cláusula penal compensatória incide na hipótese de inadimplemento da obrigação (total ou parcial), razão pela qual, além de servir como punição à parte que deu causa ao rompimento do contrato, funciona como fixação prévia de perdas e danos. Ou seja, representa um valor previamente estipulado pelas partes a título de indenização pela inexecução contratual. De outro turno, as arras se relacionam à quantia ou bem entregue por um dos contratantes ao outro, por ocasião da celebração do contrato, como sinal de garantia do negócio. De acordo com os arts. 417 a 420 do Código Civil de 2002, a função indenizatória das arras se faz presente não apenas quando há o lícito arrependimento do negócio (art. 420), mas principalmente quando ocorre a inexecução do contrato. Isso porque, de acordo com o disposto no art. 418, mesmo que as arras tenham sido entregues com vistas a reforçar o vínculo contratual, tornando-o irretratável, elas atuarão como indenização prefixada em favor da parte "inocente" pelo inadimplemento do contrato, a qual poderá reter a quantia ou bem, se os tiver recebido, ou, se for quem os deu, poderá exigir a respectiva devolução, mais o equivalente. Outrossim, de acordo com o que determina o art. 419 do CC/02, a parte prejudicada pelo inadimplemento culposo pode exigir indenização suplementar, provando maior prejuízo, "valendo as arras como taxa mínima", ou, ainda, pode requerer a execução do acordado com perdas e danos, se isso for possível, "valendo as arras como o mínimo da indenização". Nesse contexto, evidenciado que, na hipótese de inadimplemento do contrato, as arras apresentam natureza indenizatória, desempenhando papel semelhante ao da cláusula penal compensatória, é imperiosa a conclusão no sentido da impossibilidade de cumulação de ambos os institutos, em face do princípio geral da proibição do non bis in idem (proibição da dupla condenação a mesmo título). REsp 1.617.652-DF, Rel. Min. Nancy Andrighi, por unanimidade, julgado em 26/09/2017, DJe 29/09/2017
Tá Difícil? Quer por assunto?! 💡INFORMATIVOS STJ, POR ASSUNTO. Os informativos são divididos de forma a sistematizar os assuntos tratados na Constituição Federal, leis e doutrinas. Por: Karla Viviane Ribeiro Marques e Allan dos Anjos Moura Marques. *Observar atualizações no site do STJ
Translate
Mostrando postagens com marcador Civil-Obrigações_Inadimplemento_Arras. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Civil-Obrigações_Inadimplemento_Arras. Mostrar todas as postagens
08/11/2017
20/02/2016
DIREITO CIVIL. DESPROPORÇÃO ENTRE A QUANTIA PAGA INICIALMENTE E O PREÇO AJUSTADO.
Se a proporção entre a
quantia paga inicialmente e o preço total ajustado evidenciar que o
pagamento inicial englobava mais do que o sinal, não se pode
declarar a perda integral daquela quantia inicial como se arras
confirmatórias fosse, sendo legítima a redução equitativa do valor a
ser retido. Quanto às arras, deve-se destacar que elas têm
duas funções: a) confirmatória (principal); e b) penitencial
(secundária). As arras confirmatórias podem significar princípio de
pagamento, na medida em que o negócio efetivamente se concretizar.
Marcam, portanto, o início da execução do negócio. Convém esclarecer
que o valor dado a título de arras confirmatórias deve ser
integralmente perdido, ou seja, quando a parte que deu as arras não
executar o contrato, não terá direito à devolução do "sinal" por ter
dado causa à rescisão. Mas, se o valor do pagamento inicial
englobava mais do que o sinal, o percentual de retenção deve ser
reduzido. Isso porque não é razoável o entendimento de que todo o
referido valor inicial pago seja enquadrado como sinal ou arras
confirmatórias e, em consequência, sujeite-se ao perdimento em prol
do vendedor. Entender de forma diversa implicaria onerar
excessivamente a parte que deu as arras, ainda que a ela tenha sido
atribuída culpa pela rescisão do contrato, e beneficiar a parte que
as recebeu. Em outras palavras, seria uma fonte de enriquecimento
desproporcional. Observe-se que a orientação jurisprudencial do STJ
é no sentido de que a fixação das arras confirmatórias se dá em
percentual inferior a 20% do valor do bem, variando, mais
precisamente, entre 10% e 20% (AgRg no REsp 1.013.249-PE, Quarta
Turma, DJe de 8/6/2010; e REsp 355.818-MG, Quarta Turma, DJ
13/10/2003). Nessa linha intelectiva, convém mencionar o Enunciado
n. 165 da III Jornada de Direito Civil do CJF: "Em caso de
penalidade, aplica-se a regra do art. 413 ao sinal, sejam as arras
confirmatórias ou penitenciais". Esclareça-se que o art. 413 do CC
estabelece que "a penalidade deve ser reduzida equitativamente pelo
juiz se a obrigação principal tiver sido cumprida em parte, ou se o
montante da penalidade for manifestamente excessivo, tendo-se em
vista a natureza e a finalidade do negócio". REsp 1.513.259-MS, Rel. Min. João Otávio
de Noronha, julgado em 16/2/2016, DJe 22/2/2016.
Assinar:
Postagens (Atom)